07 fevereiro 2019

Sobre abraçar cheiros



Eu subi o elevador e ao chegar perto da porta do apartamento que moro, senti um cheiro que me lembrou o dia da minha chegada em São Paulo. Eu tenho meus cheiros favoritos: o de café, o de alho fritando no azeite, o detergente de maçã que me lembra as bolhas de sabão que eu amava fazer, o de tinta misturada com papéis que lembra meu pai, um cheiro doce específico de quando assisti um espetáculo de teatro anos atrás mas que me marcou muito, e o mais novo: o do detergente do prédio que moro em SP. 

Se pararmos pra pensar, como o olfato é uma coisa louca, né? Porque pensa comigo, a visão depende da velocidade da luz, certo? E a audição, do som. O olfato chega pelo ar. Não sei como funciona e se interfere tanto assim nos outros, mas em mim, é automático. Rápido. Vou diretamente pra outro momento da vida ou trago pessoas em mente. 

Cheguei a me desfazer de perfumes porque me lembravam uma situação ou uma pessoa que não queria lembrar. Assim como guardei as gotas finais de um perfume só pelo o que me lembrava. Também queria comprar o perfume favorito da minha mãe só pra sentir ela próxima de mim (mas ela resolveu escolher um perfume caro, então, guardo no coração mesmo e espero ela viajar pra cá).

Mas ao entender, sentir os cheiros e as recordações, eu sinto também que me entendo. Que me vivo. Revivo, sabe? Porque, afinal de contas, é cada uma dessas e de outras lembranças que vem por cheiros que me fazem ser quem eu sou hoje. Sou do cheiro de feijão da minha tia, do cheiro do perfume que usava pra ir à escola, e do cabelo da minha irmã. Então concluo que, abraçar os cheiros, é abraçar a mim também. 


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