02 janeiro 2019

Dos textos que escrevo quando tô na rua: A Felicidade

Quando eu tinha entre 15 e 16 anos, eu fui ao cinema sozinha pela primeira vez. Era em Belém, no Cine Olympia, fui assistir mostra de filmes do Chaplin, em um domingo. E aprendi que eu era feliz com a minha própria companhia.

Quando fui sozinha a um grande cinema, as pessoas todas lá me olhavam, como quem olha pra alguém que janta sozinha em uma mesa de um restaurante chique. Me senti em um seriado americano, toda arrumada, de salto alto, esperando o cara do encontro daquela noite, e que em algum momento chega o garçom para avisar: “querida, estamos fechando, ele não vem, aceita”. Mas eu tava mesmo era de calça jeans e all star, e enquanto as pessoas me olhavam,  eu decidia se eu aguentaria um combo médio de pipoca e refrigerante.



E muitas vezes esse clima se repetiu, mas acabei me acostumando tanto que nem esqueci o quanto as pessoas um dia estranharam (mas lembro muito bem do dia que o desconhecido ao meu lado no cinema abriu uma marmita de macarrão azedo). 

Mas o caminho desandou, e por diversos motivos a gente se desacostuma a ser só, sente a necessidade de alguém pra dividir a pipoca, pra ficar atrás pra pegar o troco no ônibus enquanto você corre pra pegar a cadeira alta do lado da sombra. E tudo bem, esses dias compartilhados foram muito felizes também e cheios de risadas, só que quando eles acabaram, eu esqueci como era sorrir sozinha. 

Quando passei pelo término mais sofrido da minha vida, esqueci até da cor do meu sapato preferido. E enquanto eu via meu cabelo crescer no espelho, eu definhei junto com a liberdade que eu sempre quis/tive/tenho/terei.

Eu tô falando tudo isso porque vivo um novo amor (não tô falando do meu novo namorado - ele também claro), mas desse novo amor que aprendi a ter por mim, pelos meus cabelos que crescem sempre (e que caem todos os dias), pela cor do meu sapato preferido, pela dúvida sobre o tamanho do combo da pipoca, e pelo dia de hoje, sozinha, escrevendo esse texto, no Sesc 24 de maio, em São Paulo. Ser feliz com alguém, como também sou hoje, também é uma boa escolha. Mas não é que eu posso ser feliz sozinha, é que eu sou.  



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