14 janeiro 2019

Coisas que já escrevi: Laura

Estávamos a uma distância de dez passos. Laura estava só, mas parecia bem decidida na vida. Há tempos que os pássaros, a terra, o ar e o mar lhe serviam de companhia. Nua e de cabelos soltos, estava deitada no chão de sua casa, no silêncio. Falava só e, com a distância de dez passos, pouco a escutei.

Tarde da noite passada a vi saindo de casa com malas. Achei até que iria viajar, mas voltou um pouco antes de amanhecer e com as mãos vazias. Estava diferente de como está agora, parecia aliviada e feliz. 

Os olhos estavam vazios de coisas e lugares, mas, se bem consegui ver, repletos de sentimentos. A casa de Laura nunca teve muitas coisas, de onde fico não consigo enxergar seu quarto, mas acredito que tenha pelo menos uma cama confortável para dormir.

Às vezes, Laura se pinta inteira e dança sozinha por horas. Às vezes lê, às vezes canta, às vezes chora. Acredito que Laura é feliz assim. 

Não conheço a história que se passou antes disso tudo na vida de Laura, e seria até desinteressante conhecer. Enquanto Laura ficava ali, esperando sabe Deus o quê, percebi o quanto ela era bonita e parecia ter a pele macia e quente. 

E, enquanto pensava isso tudo, mal percebia que com quem ela conversava não era algo, nem ninguém, era com ela mesma. Parece ter contado sua história mais de uma vez e se referiu ao passado como alguém inacabado. Só quando a conversa chegou ao fim eu consegui entendê-la: "levante-se e caminhe diante de mim para que eu possa concretizá-lo", disse.

Podia ser qualquer coisa, qualquer pessoa, qualquer ser que respirasse. Mas pelos olhos de Laura, era o passado mesmo.

(em agosto de 2014)
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